COMPARTILHAR

Ficção científica está se tornando cada vez mais tendência no cinema e na TV, desde produções voltadas para o público jovem e ainda novato no meio (Jogos Vorazes, Divergente e Maze Runner) como também para públicos mais habituados com o gênero e que sempre exploram ideias e propostas cada vez mais complexas (Black Mirror e A Chegada). Dessa vez, a HBO nos traz Westworld, uma série que promete uma estrutura que consiga abranger cada um desses públicos e nos dando uma trama que consegue ser complexa sem ser entroncada.

Criado por Jonathan Nolan (irmão de Christopher Nolan) e Lisa Joy, a série foi baseada de um filme homônimo de 1973 dirigido por Michael Crichton, que retrata um parque com a temática do velho oeste onde todos os anfitriões são robôs de alta tecnologia e os convidados são ricaços buscando experiências novas. Durante a experiência do parque conhecemos Dolores, um androide que começa a ter vislumbres de coisas que ela não deveria estar vendo, criando uma aventura em torno do descobrimento da autoconsciência através da inteligência artificial.

Westworld

Não é a proposta mais inovadora do ano, visto o fato da trama já ser uma adaptação de um filme de 1973 e, além disso, a série se tratar de um tema tão recorrente em ficção científica: revolução das máquinas. Torna-se óbvio desde o início da série que Westworld irá se manter nesse quesito até o fim (e os produtores já afirmaram que possuem ideias para até seis temporadas), porém o que mais difere na série para a produção original é a construção de pontos de vista bem elaborada, não somente dos humanos que participam do parque como também dos próprios androides, não os transformando em puros vilões e dando justificativas plausíveis para que sua rebelião ocorra.

Aliás, uma das melhores coisas de Westworld é a discussão sobre a autoconsciência, tema que ainda é debatido por diversos psicólogos e filósofos atuais e que ainda se mantém como assunto fresco na ficção científica. Em uma era onde existem máquinas que podem ser tão inteligentes quanto os seres humanos (muitas das vezes bem mais inteligentes), torna-se cada vez mais difícil manter-se somente preso ao teste de Turing e de entender se o que os robôs pensam é mera programação ou se eles já possuem consciência do que são e do que podem fazer tirando proveito de suas condições. Todo esse arco filósofo é muito bem desenvolvido na série.

Westworld

O elenco é de arrepiar, sendo outro ponto alto de Westworld. Por um lado, temos o cast mais experiente, nos dando um Ed Harris fazendo o que melhor sabe fazer – um homem que está além da amargura e da frieza de espírito e que busca um propósito dentro do parque para sua vida e a dos androides – e um Antony Hopkins brilhante de tão convincente, sendo o carro chefe da série em suas aparições instigantes e que sempre esboçam diferentes camadas do seu personagem.

Por outro, temos um cast “novato” que também não deve em nada, trazendo Evan Rachel Wood como uma Dolores conflituosa e que vai se revelando a cada episódio como uma grande personagem, como também Thandie Newton, que mesmo não sendo tão novata em Hollywood surpreende por nos dar a melhor interpretação de sua carreira em um androide cafetina que já percebe logo de início que seu universo criado no parque não passa de um monte de mentiras. Até mesmo Rodrigo Santoro faz sua estreia em séries de TV com grande estilo, nos dando um personagem misterioso e, mesmo soando clichê em vários momentos, convence bastante.

Westworld

Os efeitos especiais também convencem, não sendo o carro chefe da série, mas mesmo assim surpreendendo em estética e em efeitos práticos. Toda a esquematização de como os androides são feitos e como sua biotecnologia funciona é fascinante, tornando plausível todo aquele universo robótico e como ele foi evoluindo com o crescer do parque. Até mesmo a versão mais nova de Antony Hopkings convence, desenvolvendo a mesma técnica de rejuvenescimento criada para Robert Downey Jr. Em Capitão América – Guerra Civil. Infelizmente os efeitos especiais não se mantem perfeitos o tempo todo, muitas das vezes entregando de mão beijada a maior parte dos chroma Keys e dos matte paintings de paisagens bucólicas ou de cidades ao longe.

Mas como nem tudo é perfeito, Westworld também possui pedras no caminho. A série se delonga demais em sua primeira metade em ambientar o espectador naquele universo, tornando uma série complicada de se acompanhar com muito entusiasmo por ser arrastada e somente esquentando para valer a partir do sexto episódio. Até mesmo em um ano em que tivemos tantas obras de ficção científica brilhantes, como a terceira temporada de Black Mirror e o tão aclamado A Chegada de Denis Villeneuve, Westorld parece se apequenar por nos mostrar um feijão com arroz, mesmo que bem temperado, mas que se torna apagado próximo a tantas produções mais ousadas.

Até mesmo sua temática de ficção científica com faroeste pode afastar o público mais purista, principalmente aqueles que já não gostam muito da pegada da HBO de criar conteúdo mais “adulto”, resumindo a primeira metade da série em muito sexo e muitas mortes desnecessárias. Fica nítido que Westworld seria o “próximo Game of Thrones” da emissora por conta disso. Muita das vezes fica nítido o toque quase incisivo da emissora de querer injetar tanta nudez gratuita e tanta violência em uma série que não precisava de tudo isso.