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Confesso que estava com um pé atrás para Rogue One: Uma História Star Wars. Seria o primeiro filme da saga em que o foco não seria os dramas da família Skywalker, além de possuir uma história cujo final já sabíamos desde 1977, cujo primeiro filme da série já explana logo em seus primeiros minutos de tela que as plantas da Estrela da Morte foram roubadas pelos rebeldes. Mas para minha grata surpresa, as aventuras de como tais plantas foram roubadas são tão bem explanadas em Rogue One que é impossível assistir a esse longa metragem sem ficar na ponta da cadeira, ansioso e imerso nesse vasto universo de uma galáxia muito, muito distante.

Dirigido por Gareth Edwards (o mesmo diretor do remake mais recente de Godzilla), Rogue One se passa um pouco antes dos acontecimentos de Uma Nova Esperança (1977) e acompanhamos a história de Jyn Erso, uma jovem de passado turbulento que é convocada pela aliança rebelde para uma missão de salvar seu pai – um engenheiro que fora raptado pelo império para construir a Estrela da Morte – e ao mesmo tempo descobrir algum meio de encontrar falhas estruturais da estação para que a força rebelde possa destruí-la. Para isso, Jyn e uma série de personagens impares formam o Rogue One, o primeiro esquadrão de elite da aliança rebelde a entrar em uma missão considerada impossível.

Como disse anteriormente, todo o enredo de Rogue One segue uma linha de raciocínio que já era subentendida desde o início de Uma Nova Esperança: alguém roubou os planos da Estrela da Morte e Darth Vader parte na procura de Leia para resgatá-los. Mas em contrapartida, filme já presume sabiamente que o espectador possui esse fato em mente e explora outros meandros da história, dando atenção a certos personagens que antes possuíam pouco tempo de tela nos filmes anteriores (Mom Mothma, por exemplo).

O que acaba lembrando muito a estrutura de narrativa dos livros de universo expandido de Star Wars, que sempre dão mais foco em personagens menores e em acontecimentos que pavimentam melhor as tomadas de decisões dos roteiros dos filmes. Para você que já leu e aprecia o universo expandido da saga (tantos nos livros como nas HQs ou animações), Rogue One é um prato cheio.

Rogue One: Uma História Star Wars

Existem vários personagens que fazem aparições pontuais e que, para a alegria dos fãs, marcam muita presença e são importantes para fazer interligações diretas com Uma Nova Esperança. Ao mesmo tempo, consegue ser um filme com uma estrutura desgarrada dos filmes clássicos, tendo pernas próprias para explorar cenas de ação muito diferenciadas e que deixam o filme único em suas aventuras e locações. Ou seja: ao contrário de O Despertar da Força (2015), Rogue One não se atém a estruturar o roteiro com rimas dos filmes passados e nos dá elementos verdadeiramente frescos.

Não somente esse universo expandido é retratado com muita eficácia como também a entronização dos personagens secundários para se formar o esquadrão principal que dá nome ao filme também é formado pouco a pouco com maestria. Cada personagem possui uma função bem pontuada e são introduzidos no filme de maneira convincente, tornando o Rogue One em um esquadrão justificável e orgânico.

Os grandes destaques do grupo são os personagens Chirrut Imwe e o robô K-2SO, sendo o primeiro um guerreiro cego que implementa no filme cenas de artes marciais divertidas de se assistir e que ainda acredita na força como uma crença religiosa, enquanto que o segundo consiste em uma mistura de C-3PO com o Marvin de O Guia do Mochileiro das Galáxias, um robô com um humor inglês ácido e estupidamente eficaz.

Os efeitos visuais e a fotografia são de tirar o fôlego, sendo os mais bem feitos da saga até agora. Toda a pegada mais fria e mais desnaturada de Rogue One cria um gênero diferente para o filme, tornando-se mais um exercício de gênero de guerra do que um filme de ficção científica propriamente dito. As misturas de efeitos práticos com efeitos especiais também são de tirar o chapéu, seguindo a mesma linha de raciocínio que J. J. Abrams implementou em O Despertar da Força.

Vermos aliens que misturam 3D com partes animatrônicas ou com dublês vestidos com fantasias é o que fez de Star Wars o que ele é hoje. Até mesmo o visual do filme é muito fidedigno a estética de Uma Nova Esperança e dos outros dois longas que compõem a trilogia clássica, nos dando um universo gasto pelo uso por parte da aliança rebelde em contraste com o poderio bélico monocromático e clean do império.

A trilha sonora é um grande marco para Rogue One. De temas que já conhecemos, as do império são as mais presentes, mas tirando isso o filme investe em músicas temas novas e que são tão boas quanto todas as outras já criadas para a saga. Principalmente nos momentos de tensão e drama envolvendo a protagonista, cujos ápices de dramaticidade fazem qualquer marmanjo se emocionar.

Infelizmente o filme peca justamente onde ele deveria ser melhor: em sua protagonista e em seu vilão. Felicity Jones nos entrega uma Jyn Erso monocórdia e aborrecida, nunca esboçando nada além de uma cara fechada de adolescente e cujos diálogos soam sempre infantis e beirando ao clichê de “lobo solitário”. Já o Almirante Orson Krennic, interpretado por Bem Mendelsohn, se torna facilmente esquecível quando outros vilões de muito mais peso aparecem no longa, se apequenando cada vez mais até que, no ápice da história, é preso em uma âncora de roteiro clichê de “vou explanar meu discurso maligno até que alguém venha me nocautear”.

Até mesmo o romance entre Jyn Erson com Cassian Andor (Diego Luna) soa mecânico demais e aparece justo em um momento em que não era tão necessário, como se o roteiro estivesse na obrigação de inserir algum tipo de romance de qualquer jeito na trama – mesmo sabendo que ambos os personagens não chegam a expressar tal romance com algum tipo de beijo “desentupidor de pia” como muitos outros filmes adoram fazer, mas mesmo assim soa forçado. Se não fosse por essas falhas de criação e desenvolvimento de personagens o filme seria muito mais rico.