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Ficção científica está muito longe de ser somente naves explodindo, aliens e sabres de luz. Poucos realmente entendem qual é o verdadeiro significado do gênero, tanto nos livros quanto em filmes, séries, quadrinhos e muitas outras mídias por aí. Segundo Isaac Asimov, o grande pai da ficção científica como a conhecemos hoje, nada mais é do que um gênero no qual mostra a relação do homem com a ciência e a tecnologia, ora inventada, ora existente – não importa de qual época. E parece que, em meio a tantas ficções científicas tão rasas de significado sendo lançadas atualmente, Black Mirror dá a cara a tapa e impõe-se na Netflix como a série definitiva de ficção científica mais hardcore que você um dia irá conhecer.

Black Mirror fora comprada pela Netflix e nos dá uma terceira temporada dobrada, possuindo 6 episódios, diferente das duas primeiras temporadas que possuíam somente 3 cada. O roteirista Charlie Brooker ainda permanece na produção e nos dá seis novas histórias assustadoramente boas, sempre variando desde uma ficção mais realista como também as de universos distópicos.

Para quem não conhece, cada episódio da série é como se fosse um filme paralelo a outro, sem interligação alguma de história e de personagens, possuindo até mesmo produção e atores diferentes em cada um. Mas a proposta é sempre a mesma: buscar problematizar a interação homem/tecnologia e como isso nos afeta como sociedade e como seres humanos. E o mais importante: como tais tecnologias e ciências nos transformam em humanos ou monstros em diferentes níveis, propondo sempre questionamentos sobre a vida que o próprio espectador se põe a pensar durante horas ao término de cada episódio.

Não há como avaliar Black Mirror como um grande panorama, visto a sua dedicação em retratar diferentes atmosferas em cada episódio. Por isso irei descrever uma breve crítica para cada um, buscando compreender os erros e acertos e dando uma nota parcial e individual para cada um. Como não há gancho entre os episódios, fique à vontade de ler essa crítica na ordem que quiser, buscando os episódios de seu interesse.

 

  1. Queda Livre

O primeiro episódio da temporada já começa com um chute no estômago, abordando de maneira quase mágica, bem iluminada e em cores pastéis uma sociedade que vive com base na pontuação que você adquire sendo bem quisto nas redes sociais. Tudo o que você posta, fala e vê é monitorado por todos a sua volta, e com base na aceitação dos outros você vai ganhando estrelas numa pontuação de 1 a 5. Nossa protagonista, interpretada pela brilhante Bryce Dallas Howard, se vê em um dilema ao se deparar com a casa de seus sonhos, porém a casa necessita de uma pontuação de 4,5 estrelas para conseguir ser paga. Para isso, ela faz de tudo para conseguir a aceitação de pessoas importantes da sociedade, mas para conseguir tal aceitação ela passa por diversas dificuldades.

Black Mirror

A genialidade do roteiro de Charlie Brooker é indiscutível, criando todo um universo plausível onde tudo gira em torno da aceitação exagerada que já existem nas redes sociais atualmente, maximizando seu valor na sociedade como se fosse uma moeda de troca para se conseguir ser bem-sucedido na vida a troco de bajulação. Como todo bom episódio de Black Mirror, Queda Livre começa introduzindo o universo e problematizando a cada minuto que passa, transformando o clímax em um verdadeiro caos sem fim.

A linguagem visual do episódio é o que fala mais alto, sempre retratando o microcosmo que a protagonista vive em planos bem iluminados, limpos, com cores claras e harmônicas, justamente para mostrar o quão “marshmallow” aquele mundinho em que ela vive se tornou. Porém, a partir do momento em que a vida da protagonista vai ficando mais difícil, essa paleta de cores adocicada vai se transformando pouco a pouco em uma paleta mais realista, dessaturada, com contrastes mais abruptos e texturas mais evidentes. É o episódio com a direção de arte mais apurada.

O único revés do episódio é o dele ser um tanto previsível no final. Em certo ponto é nítida a estrutura um tanto “Sessão da Tarde” que ele vai se tornando, criando dificuldades para a protagonista que já sabemos como poderão terminar. Infelizmente o episódio torna-se previsível por conta disso.

Nota do episódio: nota

 

  1. Versão de Testes

Podemos considerar Versão de Testes como o episódio definitivo de horror de Black Mirror. Nele conhecemos um mochileiro que, depois de viajar pelo mundo inteiro, depara-se com sua última viagem na Inglaterra. Lá ele acaba perdendo todo o seu dinheiro e decide participar de um teste de realidade virtual para faturar uma grana para voltar para casa. A realidade virtual apresentada para ele é devastadoramente divertida e real, porém a partir do momento em que ele passa a entrar cada vez mais no jogo, o discernimento de real e ficção passa a ser tênue.

Black Mirror

Como a maioria dos episódios da série, Versão de Testes começa nem parecendo ser um episódio sobre ficção científica. A abordagem da realidade virtual vem aos poucos e insere o espectador de forma convincente ao tema, abordando uma tecnologia ainda em fase de testes e que causa estranhamento tanto para nós quanto para o protagonista. O episódio passa a “estragar a nossa mente” do meio para o final, quando tudo passa a sair do controle e o próprio protagonista não consegue mais entender se ele está dentro ou fora do jogo. Toda essa atmosfera claustrofóbica faz de Versão de Testes um dos episódios mais horripilantes já feitos para a série.

Infelizmente o episódio só não consegue entregar efeitos especiais tão bons quanto o roteiro. Em certas partes a equipe de produção pensou demais e fez de menos, nos entregando alguns efeitos de computação gráfica questionáveis com relação a personagens tridimensionais. Mesmo se tratando de um jogo de realidade aumentada embasado na realidade, a própria qualidade da série deixou a desejar.

Nota do episódio: nota

  1. Manda Quem Pode

O tipo de episódio que te faz repensar sobre sua vida e sobre os “pecadinhos” que você comete pensando que ninguém está vendo. Acompanhamos a vida de um garoto que ao ser ameaçado por hackers de expor toda a sua intimidade em um vídeo, precisa realizar tarefas para os mesmos. Evitarei de falar mais sobre o episódio para evitar spoilers, porém toda a temática de Manda Quem Pode gira em torno do “poder” que os hackers possuem de aniquilar a vida das suas vítimas. Não somente isso, mas todo o senso de justiça que eles pensam que possuem ao controlar tais pessoas que, voluntariamente, consumiram material inadequado na internet ou possuíram relações extraconjugais.

A qualidade desse episódio em específico está na sua condução de narrativa. Como ele se passa na atualidade, sua genialidade se foca mais em conduzir o espectador através dos olhos de um protagonista que acreditamos ser inocente o tempo todo, sendo exposto a violência e a várias crueldades que são absurdas para qualquer cidadão de direito, porém não tão absurdas se comparadas as perversidades feitas pelos menos quando ninguém está olhando. O episódio põe-se justamente a discutir sobre este quesito, não dando tamanho para os pecados que achamos pequenos e que cometemos quase que diariamente, expondo-os de maneira crua e imperdoável.

Tal condução de narrativa mostra-se tão eficaz que o espectador se vê surpreso com uma série de revelações que desenlaçam a confusão que o episódio parecia de início, nos pondo a pensar sobre toda a nossa vida e no que o ser humano é capaz de fazer para se ver livre de ameaças a sua vida privada. Não conseguimos nunca julgar os personagens que estão sofrendo tais ameaças pois muitas das vezes nos colocamos no lugar dos mesmos, influenciados por toda a podridão da humanidade. Ao rolar os créditos finais, é impossível não sentir nojo de si mesmo como ser humano.

Nota do Episódio: nota

  1. San Junipero

Junto de “Volto Já” (primeiro episódio da segunda temporada), San Junipero é o episódio mais bonito da série – e também o mais triste. Para evitar spoilers também serei breve: anos 80, duas garotas se conhecem em uma noite de balada e passam a ficar juntas. Porém, em uma noite, uma delas não aparece mais, e a outra passa a procurar por sua amante. Aí você me pergunta: onde está a ficção científica? Quando visualizar esse episódio você irá entender.

O que o episódio mais fala não é sobre o amor, mas sim o que vem para nós depois da morte; o que nós carregamos na vida que nos faz ser quem somos e o que precisamos largar para termos uma vida plena e feliz. E principalmente: o que a tecnologia será capaz de fazer futuramente para solucionar o finito de nossas vidas. Nossas protagonistas constroem em torno de seu romance homossexual uma trama orgânica e que nos apunha-la direto no coração nas partes mais comoventes.

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É o episódio onde os produtores mais se divertiram com a estética, passando por várias gerações da cultura pop desde os anos 80 como os 90, 2000 e o high tech futurista ainda vindouro. Tantas cores e tantas texturas encontradas juntas em um único episódio que fica difícil de dizer qual cena é a sua favorita. Ainda mais quando o roteiro começa a ficar cada vez mais denso de propósito é que San Junipero fica ainda mais imersivo esteticamente, pulando do drama para a diversão com muita propriedade.

Não somente a trama como também as duas protagonistas vão ganhando cada vez mais profundidade a medida que o episódio vai se desenrolando. Conhecer o passado das mesmas e o porquê de elas estarem juntas é o que transforma Black Mirror em uma das séries mais comoventes já feitas. Dificilmente você irá ver algo igual nas telonas ou na TV.

Nota do Episódio:

 

  1. Engenharia Reversa

O primeiro episódio da série com temática militar, lembrando muito filmes como Soldado Universal (1992). A ideia do episódio é a de passar a vida dos militares de um futuro distópico, onde civis são atacados constantemente pelos Baratas, seres humanos que sofreram algum tipo de mutação contagiosa e que agora são dizimados pelas forças armadas. Confesso que não foi o episódio mais atraente da temporada, mas as questões propostas para pensarmos são tão importantes quanto as dos outros episódios.

Guerras sempre foram um problema para a nossa sociedade desde a época em que cada lado do campo de batalha começou a enxergar o inimigo como ser humano, igual e falho. Desde a primeira guerra mundial isso tem acontecido com muita frequência, pois perdemos cada vez mais a ciência de bem e mal em meio a esses conflitos. E é esse pensamento que Engenharia Reversa nos traz, sendo colocado na trama de forma convincente e que nos mantém presos aos interesses do protagonista.

Sua única deficiência é que sua história não é a coisa mais original do mundo. Minha comparação com Soldado Universal não foi por acaso. Criar uma trama em que um soldado se depara com um inimigo que não era bem isso o que seu comandante sempre martelava em sua cabeça não é uma trama tão fascinante como antigamente, ainda mais depois de vermos tantos outros filmes medíocres tentando se aproveitar dessa estrutura. Nada contra revisitarmos esse tema de uma forma revigorada, porém Black Mirror já se mostrou autossuficiente com relação a histórias originais e não precisava se ater a histórias já batidas.

Nota do episódio: sem-titulo-1

 

  1. Odiados Pela Nação

Nem consigo chama-lo de episódio pois é o mais longo da série, tão longo que mais parece um longa-metragem hollywoodiano – muitas das vezes sendo até mesmo superior a muitos filmes policiais de duas horas feitos por aí. Vemos o trabalho investigativo de duas detetives na busca de uma solução para a morte misteriosa de uma colunista que publicou uma matéria desrespeitosa e que a internet reagiu de forma agressiva.

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O “haterismo” que a internet gera é base de discussão em qualquer grupo de rede social. Muitas das vezes criticamos os haters de internet, mas nem nos tocamos que muitas das vezes nós somos haters também, seguindo uma massa de críticas sobre pessoas que fizeram coisas erradas na vida. É o que o episódio se propõe a discutir, indo desde o básico (mostrando coisas que para nós parece besteira) ao avançado (o que o haterismo causa nas pessoas de verdade).

Odiados Pela Nação consegue ser um hibrido entre realidade alternativa com a nossa realidade atual, colocando os aparelhos eletrônicos mais modernos que os nossos e diversificando um pouco a temática de nanotecnologia, utilizando abelhas robôs como fonte de polinização de plantas e que mais para a frente são utilizadas de forma ilícita. A fotografia, sempre melancólica e fria, resume a ausência de sentimentalismo que o universo do episódio se encontra, sempre apático em entender o próximo. O modo como a trama se desenrola também é cativante, progredindo no assunto até tirar o fôlego do espectador com seu clímax catastrófico. Infelizmente pelo episódio ser muito longo, ele cai em uns bolsões mais arrastados, mas nada que um pouco de determinação em assistir não resolva.

Nota do Episódio: Nota do Episódio: 4,5/5

 

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REVIEW GERAL
Roteiro:
Direção:
Elenco:
Trilha Sonora:
Fotografia:
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Designer, escritor, amante de paçoca e cinéfilo desde de que se entende por gente, além de possuir uma coleção generosa de DVDs e Blu-Rays de filmes e séries que são limpos e organizados religiosamente.