COMPARTILHAR

Quando Animais Fantásticos e Onde Habitam foi anunciado, fiquei dividido: uma parte de mim ansiava em voltar para esse universo mágico que Harry Potter nos mostrou tão bem em oito filmes; já a outra parte estava com um pé atrás, vendo que um subproduto da franquia cujo livro de referência é somente um bestiário do mundo mágico poderia não render tão bons frutos quanto a obra original. E após assistir ao filme, vi que um desses lados pesou mais que o outro.

Dirigido por David Yates (o mesmo diretor dos quatro últimos filmes de Harry Potter), o filme se passa nos anos 20 e nos traz Newt Scamander, um biólogo excêntrico que viaja para os Estados Unidos com o propósito de reaver uma criatura mágica que fora contrabandeada, porém ao se encontrar com um trouxa (ou melhor, um “no-maj”) no meio da rua, sua mala de criaturas fantásticas acaba sendo trocada com ele, e após ser aberta mais bestas são soltas pela cidade. E toda a aventura de Scamander concentra-se em recapturar essas criaturas e o de conter uma nova ameaça que passou a se alastrar por Nova York.

Um dos pontos positivos de Animais Fantásticos é o de ter pernas próprias para explorar outras ideias. Uma de minhas preocupações era o de manterem uma âncora presa nos pés que mantivessem o filme sem asas próprias para nos mostrar elementos que não fossem além dos que os oito filmes de Harry Potter já mostraram, e para o bem maior, o filme não possui limitações. Tanto a localidade em que o filme se passa como também a trilha sonora não tentam requentar a mesma mecânica, explorando não somente uma época diferente como também um núcleo diferente de bruxaria, mostrando que a América do Norte era tão competente no universo mágico quanto o europeu.

Permitindo-me ser redundante, as criaturas mostradas no filme são realmente fantásticas. Todas as criaturas são originais e possuem um design encantador, variando sempre entre as criaturinhas mais engraçadas e bonitinhas como também para as mais amedrontadoras e imponentes. Não somente as bestas mágicas como também o lugar em que elas estão alocadas é que é interessante, transformando a mala de Scamander em um mini zoológico e trazendo um visual interessante e que convence.

O clímax do filme também é um fator importante, pois possui uma linha dramática que nos prende e que revela grandes acontecimentos. Toda a ação e os efeitos especiais são muito bem executados, além de nos trazer uma resolução de problemas eficaz e que se torna orgânica com toda a proposta que o filme nos traz. E é até algo bom do filme: o de respeitar a inteligência do espectador de não precisar mais explicar tantos elementos do universo de Harry Potter, como magias, feitiços e encantamentos, e nos deixar livres para pescar sozinhos todas as mecânicas que já foram muito bem explicadas na saga original.

Porém, as beneficies do filme acabam por aí. Muito dos fatores positivos do filme acabam funcionando também como fatores negativos, principalmente pelo desapego do filme com a saga original e com a trilha sonora. O filme torna-se tão desgarrado de todos os elementos de Hogwarts (que foi o carro chefe de quase todos os filmes de Harry Potter), e de toda a mitologia que já conhecíamos de Voldemort que Animais Fantásticos mais parece um filme de fantasia qualquer do que um filme digno de ser conhecido como cânone da franquia.

Animais Fantásticos e Onde Habitam

O mesmo vale para a trilha sonora, que mesmo não mostrando quase nenhum elemento da música tema principal do bruxinho (e com total razão), acaba que o filme nos traz uma música tema nova, porém medíocre, não nos fazendo ter aquele estalo de cantarolar a mesma após o término da sessão. Comparar a qualidade grandiosa da música tema de Harry Potter com a música tema de Animais Fantásticos chega a ser desonesto.

Sobre Eddie Redmayne, só consigo pensar em duas palavras: piloto automático. Não é o primeiro e nem o último papel de pessoa retraída, envergonhada e excêntrica que Redmayne irá pegar em sua carreira, porém sua atuação como protagonista em Animais Fantásticos está longe de ser sua melhor performance. Scamander é somente uma colcha de retalhos de vários outros trabalhos do ator, não surpreendendo em nada e somente pegando desprevenido aqueles que não estão acompanhando o que anda passando no cinema dos últimos cinco anos.

Animais Fantásticos e Onde Habitam

Também me surpreendi quando vi em uma notícia que já estão criando outras quatro continuações, fazendo um total de cinco filmes novos inspirados nesses acontecimentos e em toda a saga da luta contra Grindelwald, o bruxo das trevas da vez. Porém, a ideia de que os produtores mal conseguiram criar história para um só filme não saiu da minha cabeça durante a exibição, quanto mais fazer quatro continuações. Perdão para os fãs, mas um filme já foi mais do que o suficiente.