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Filmes que ficam para a história são sempre os que nos deixam pensativos por horas, matutando sobre o que acabamos de assistir e sempre pondo em reflexão a problemática que os personagens se meteram. São poucos os filmes que conseguem desestruturar nossos pilares emocionais a tal ponto de repensarmos sobre nossas vidas e o que temos feito com nossas escolhas. A Chegada consegue fazer tudo isso e ir mais além: põe em xeque todas as nossas experiências sobre o amor, que mesmo sabendo que podemos estar nos arriscando a ter um final triste, investimos no amor e nos momentos felizes que a sua trajetória nos leva.

Dirigido por Denis Villeneuve (criador dos magníficos Sicário: Terra de Ninguém e Os Suspeitos). A história já começa com flashes da vida de Louise Banks (Amy Adams), mostrando desde o nascimento de sua filha até a sua morte precoce ainda adolescente, até nos transportar para uma professora de línguas fria e desinteressada pela vida que, em um dia normal de aula, assiste no noticiário que não somente uma, mas doze naves extraterrestres pousaram em diferentes locais do mundo, não esboçando nenhuma ameaça ou mensagem. Sendo assim, a força nacional a contrata para que eles possam descobrir como podem contatar a vida alienígena e entender o propósito deles na Terra.

A Chegada

Villeneuve já é um diretor que sabe conduzir suspense como ninguém, e A Chegada é carregado de suspense do início ao fim. Passamos o filme inteiro pelo ponto de vista de Louise, o que nos transporta de maneira muito ágil para dentro da história, desde a simples edição de som ao adaptar os ouvidos da personagem para os nossos como também fragmentar a história e dar pulos de tempo de acordo com a presença ou não da mesma. Tendo isso em pauta, acompanhamos junto com ela todo o desenvolvimento da “invasão” alienígena de forma tão instigante que ficamos na ponta da cadeira junto com ela para entendermos o motivo das naves espaciais terem vindo para a Terra.

É um filme que sabe injetar leveza e tensão nos momentos certos. A paleta de cores é muito bem distribuída, desde para momentos claustrofóbicos dentro da nave alienígena, quase que um preto e branco nebuloso e opressor, como também cores mais harmoniosas nos momentos da protagonista com a filha. A fotografia é terrivelmente inteligente ao aplicar rimas visuais nos pontos certos da trama, fazendo uma condução visual progressiva e que acompanha a temática do longa, compondo todo um paradoxo temporal que passa a fazer sentido à medida que a história se desenrola.

A Chegada consegue abranger todos os setores da ficção científica de uma forma tão brilhante que já faz tempo que não vimos algo assim (a única experiência parecida tem sido o que Black Mirror tem nos trazido). É uma ficção científica intimista, contida em poucos espaços e minimalista no design, criando uma nave espacial que possui tanto o seu interior como exterior de uma simplicidade estupidamente intrigante. Os efeitos especiais conseguem ser tão fidedignos e mais entronizados com a realidade dos cenários que parece que eles estão realmente interagindo com naves de verdade. Quando vemos que o filme só custou cinquenta milhões para ser produzido, percebemos que o dinheiro foi muito bem investido.

Até mesmo certas explicações científicas são retratadas no filme de forma a somente introduzir mais o espectador mais experiente ou mais leigo ao contexto, o que torna o filme inteligente a ponto de sempre respeitar a inteligência do público, sendo didático na medida certa e nunca desperdiçando tempo de tela explicando algo que nós já estamos vendo, desde as explicações de Louise sobre o seu trabalho como linguista como até mesmo as explicações científicas de mudança de gravidade dentro da nave alienígena.

Amy Adams e Jeremy Renner fazem um trabalho estupendo. Adams faz uma protagonista que entende o que está fazendo (até mesmo porque em certa parte do filme um de seus alunos a chama de “doutora”, então ela não está ali no filme à toa) e que ao mesmo tempo se sente intrigada de entender o motivo dos aliens estarem entrando em contato. Conforme o filme passa, sua psique torna-se cada vez mais perturbada até depois entendermos o porquê dela estar passando por tantas problemáticas durante a comunicação com os aliens. Já Renner nos dá um físico teórico que foge um pouco dos trabalhos mais atuais do ator, dando um respiro do “homem de ação” que ele estava se tornando e nos trazendo um personagem mais contido.

E o que dizer da trilha sonora, que nos arrebata emocionalmente desde o início do longa? Suas músicas melancólicas e tensas nos transportam para o cerne do filme desde o primeiro acorde, trazendo uma temática mais minimalista e ao mesmo tempo mais emocional para A Chegada. É impossível não se emocionar com este filme, principalmente durante o grandioso ponto de virada onde a protagonista percebe o que ela realmente está fazendo ali e o que ela irá realizar em seu futuro.