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Não precisamos ir muito longe para vermos que a produção brasileira de séries de TV é bastante limitada. No canal global, vemos novelas com os mesmos roteiros e os mesmos personagens, além das poucas (e desastrosas) tentativas de fazer séries com conteúdo mais fora da caixa – como Supermax. No canal do bispo Macedo, vemos novelas que, apesar do bom investimento em efeitos especiais, nunca saem da temática bíblica. E no canal de Sílvio Santos, nada mais além do que novelas somente voltadas para o público infantil, com roteiros bobos e rasos.

Infelizmente, os canais de TV gratuitos ou estão dormindo para a nova tendência vinda de fora, de séries de TV bem produzidas e com bons roteiros, ou simplesmente se arriscam em nos dar as mesmas fórmulas desgastadas de novela, só que com uma roupagem diferente, trocando “seis” por “meia dúzia”. Mas eis que surge a Netflix, tão cercada por críticas das próprias emissoras de TV brasileiras por ela não ter tanto conteúdo brasileiro e ainda sim estar regularizada no Brasil, mas que agora nos dá 3%, uma série que sai do lugar comum e nos dá finalmente uma produção brasileira que vale a pena ser assistida e desfrutada até o final.

Dirigida por César Charlone (que já trabalhou em Ensaio Sobre a Cegueira), Daina Giannecchini, Dani Libardi e Jogatá Crema, a série veio oriunda do Youtube, que ganhou um episódio piloto instigante e que servia de propaganda de um roteiro maior e mais elaborado, porém a ideia ficou por muito tempo na gaveta sem nenhuma emissora interessada em promove-la. Até que a Netflix comprou os direitos e nos deu oito episódios de uma temporada que conta a história de Michelle, uma jovem pobre que, ao completar 20 anos, vai junto de uma multidão para participar de um processo seletivo onde somente 3% passam, e os que alcançam a vitória podem desfrutar da boa vida do Maralto, uma ilha onde tudo prospera.

A premissa não é original, visto que já tivemos muitos filmes e séries de TV que já falaram sobre sociedades distópicas, como Jogos Vorazes, 1984 e até mesmo Black Mirror. Porém, ao percebermos que se trata de uma série brasileira, a história começa a ganhar suas particularidades. A meritocracia é um tema muito presente na trama, e consegue abordar tanto os prós e os contras desses ideais sem esboçar algum tipo de lado ou de mostrar “panfletismos” ativistas. Muito pelo contrário, a série sempre está disposta a problematizar essas ideias e pôr o espectador a pensar sobre a própria sociedade em que vive atualmente e a de tirar suas próprias conclusões.

3%

É uma série fácil de ser maratonada por ser curta, ter episódios enxutos e com tramas que te instigam a querer saber mais, sempre revelando pouco a pouco o passado dos personagens principais. Michelle, mesmo sendo a nossa protagonista, logo tem seu espaço de cena disputado com outros personagens tão interessantes quanto, e mesmo com os atores caindo em diversos vacilos de atuação (algo que irei abordar mais para a frente na crítica), existem episódios de tirar o fôlego de tão bem atuados e dirigidos.

Os efeitos especiais e os cenários são bem construídos e não fazem feio. A série é consciente de sua pouca verba e não procura ousar demais, procurando sempre mostrar uma tecnologia avançada, porém minimalista.  O jeito que os personagens interagem com a tecnologia é convincente a mesma de cenários reais com computação gráfica é bem executada. Até mesmo os mattepaintings e os chroma Keys são de certa forma imperceptíveis na maioria dos casos.

O que condena 3% de não ser uma das melhores séries brasileiras é a precariedade de direção e de atuação, coisa que não é nova no cenário audiovisual nacional. Salvando poucos episódios (o 1º e o 5º principalmente), não será a primeira e nem a última produção que vemos que se encontra atrelada demais em cada linha do roteiro, não tendo ousadia da direção em orquestrar melhor certas cenas e nem competência dos atores de improvisar suas falas.

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A maioria dos diálogos são robóticos e pouco naturais, quase como se eles estivessem lendo o script ali na nossa frente, sem tirar uma vírgula e falando um português perfeito demais. Mesmo sabendo que se passa em um futuro distante (ou não), vermos todo mundo falando polidamente e seguindo exatamente os trilhos do roteiro sem vacilar ou improvisar é um tanto estranho.

Muitos episódios são editados e dirigidos com um pouco de preguiça de amarrar melhor a história, deixando certos personagens um tanto rasos e com uma linha de continuidade duvidosa, deixando suas aparições terrivelmente inorgânicas. Existem personagens que parecem ter poderes de tele transporte, visto que eles quase aparecem em vários lugares ao mesmo tempo quase que instantaneamente. Um pouco de cenas expositivas e que se preocupassem mais em mostrar uma certa passagem de tempo entre tais partes não seria nada mal.