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Algo que precisa ser ressaltado antes que comece minha crítica: não sou um leitor de Dan Brown. Li pouco dos livros dele e a sua literatura pouco me atinge. Confesso que seu sucesso é merecido em vários pontos, não é à toa que suas obras já ganharam várias versões cinematográficas (Código Da Vinci e Anjos e Demônios). Porém algo precisa ser posto em pauta antes que os fãs mais ferrenhos venham com o discurso de “você não leu o livro, por isso não pode julgar o filme”.

Uma adaptação precisa sobreviver por si mesma, ou seja, precisa conter todo o cerne do livro sem que ele seja requerido para entender mais da história, e Inferno literalmente não consegue fazer isso. Se fosse tão necessário ter em mente cada parágrafo escrito por Dan Brown antes de ir ao cinema, estariam entregando nas portas de cada sessão um exemplar do livro para que os espectadores pudessem ler enquanto que o longa fosse exibido. Tendo feito o desabafo e tendo esclarecido uma série de questões sobre adaptações de livro para filme, vamos seguir com a crítica.

Dirigido por Ron Howard (premiado pelo fabuloso Uma Mente Brilhante e tendo recentemente ganhado mais o meu apreço por No Coração do Mar), voltamos a acompanhar as aventuras do professor Langdon, dessa vez envolto em uma série de enigmas envolvendo o inferno de Dante e uma toxina desenvolvida para ser liberada e dizimar metade da população mundial.

O enredo do filme ganha mais peso por sempre estar envolto nos mistérios e enigmas sobre a vida e obra de Dante Alighieri, escritor e poeta italiano que, na idade das trevas, descreveu como seria o inferno de forma tão vivida que até hoje seguimos muitos dos seus pensamentos sobre como seria o mundo abissal dos pecadores.

Dan Brown sempre foi fascinado por tais visões apocalípticas e sempre tentou abordá-las em seus livros com um cunho mais voltado para teorias da conspiração, algo que parece funcionar perfeitamente na literatura, mas ao ser passada para as telonas falha absurdamente, tudo por quererem condensar tantas ideias e conceitos em um filme de duas horas que mal sabe impor um ritmo condizente a sua narrativa.

Inferno

Tudo no filme é corrido. A passagem de ideias e resolução de enigmas é totalmente atropelada por uma imposição de ritmo desenfreada que somente prejudica o filme, tudo para transformá-lo em algo mais urgente e com mais ação, como se o fim do mundo estivesse prestes a acontecer. Claro que o filme brinca muito com esse conceito apocalíptico, mas a falta de respiro é tão óbvia que chegamos a nos perder em vários momentos do filme, até que os próprios personagens resolvem mastigar tudo o que aconteceu em certo ponto do longa para que finalmente conseguíssemos entender o que raios estava acontecendo.

Some o problema de ritmo com uma péssima fotografia, que brilha somente quando precisa mostrar todos os monumentos, quadros e salões de época localizados na Itália e Turquia, mas falha absurdamente ao auxiliar o espectador a entender os enigmas e nas “cenas de ação”, com um péssimo “camera shaking” que somente tumultua a visão e compreensão da ação e que transforma o filme em um primo feio dos filmes de Michael Bay. Até agora tendo entender qual é a da propaganda que estavam fazendo para assistirmos Infenro em IMAX, já que é meio difícil de entender o que o filme tenta passar com câmeras tão tremidas.

Inferno

A história em vários pontos parece ser interessante, me chamando para conhecer o livro. O clímax do terceiro ato tem umas boas sacadas e a ação é melhor equilibrada, porém o primeiro e o segundo ator carecem do mesmo carinho, sufocando o espectador com informações esquecíveis e uma ação desnecessária. Como não li o livro então posso estar enganado, mas acompanhar as mesmas ideias de ponto de vista do narrador do livro e somente copiá-las para a mesma experiência do filme nem sempre funcionam.

E depois de todos esses disparates feitos nas telonas, precisamos discutir sobre Tom Hanks. Não preciso dizer que é um ator gabaritado em vários quesitos, mas está meio claro que ele está no filme somente para ganhar uns cascalhos a mais. Ele está longe de estar na sua melhor performance, sem falar que seu personagem soa óbvio o tempo todo, com 80% de suas falas resumidas em “precisamos chegar a tempo!”, “temos que desarmar a bomba!” e o típico “venha, por aqui!”.

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