COMPARTILHAR

Séries musicais são tendência entre os jovens, mas poucas saem do lugar comum. Sobreviver reprisando músicas pop que todos amam não é o maior desafio do mundo, – algo que Esquadrão Suicida se aproveitou bastante nas telonas – mas conseguir produzir uma trama que desenvolva bem uma época junto com a música é um desafio que poucos sabem lidar. E The Get Down agarrou essa oportunidade com todas as forças.

Criado por Baz Luhrmann (diretor dos brilhantes Moulin Rouge, Romeu + Julieta e O Grande Gatsby) e Stephen Adly Guirgis, The Get Down é a nova série da Netflix que nos leva ao sul de Bronx de 1977, uma cidade caótica, carente e sem nenhuma perspectiva de melhorias em segurança, saúde e educação. Só a música é que florescia, ainda pavimentada pelas discotecas e a música cristã. E é nesse contexto que conhecemos Ezequiel, um jovem suburbano que encontra na música algo novo a ser explorado, originando mais para frente o que conhecemos hoje como Hip Hop.

O que a série mais sabe desenvolver é o contexto sociocultural da música nos anos 70 entre a comunidade negra e porto-riquenha, que encontrava nas pick-ups e nos versos cantados com velocidade e gingado o verdadeiro sentimento sobre liberdade de expressão e de diversão, literalmente embalando os sábados à noite em meio as vielas escuras o som frenético e dançante.

A série consegue passar todo esse sentimento de forma sem igual, brincando muito bem com a montagem única que só Baz Luhrmann consegue utilizar, a fotografia granulada e amarelada que retrata muito bem os anos 70 e a trilha sonora capturando desde os clássicos de discoteca como também as músicas que eram geradas nas pick-ups como se fossem um só organismo.

A primeira temporada foi dividida em Parte 1 e 2, sendo a primeira parte contendo seis episódios e a segunda parte com lançamento previsto para 2017. Por mais que sejam episódios longos, são fáceis de serem vistos por inteiro em uma única tarde em um fim de semana, ainda mais para os interessados em entender como se originou toda a cultura do Hip Hop e porque ela ainda é tão duradoura até hoje.

Não somente o fator musical atrai como também toda a questão da época em si, tais como os figurinos, os cortes de cabelo, os filmes, jogos e quadrinhos que eram famosos nos anos 70 e muito mais estão sempre presentes na série de forma orgânica, compondo todo o ambiente de forma a nos transportarmos a época desde o primeiro episódio até o último.

O roteiro é algo a ser aplaudido pelo fato dele colocar de forma tão natural as rimas, músicas e diversos elementos do Hip Hop, como se aquilo fizesse parte da vida dos personagens o tempo todo. E quanto mais se avança na série, mais esse elemento é presente, mostrando a evolução da formatação do Hip Hop da mera desconstrução do instrumental de músicas já conhecidas para o padrão atual.

Mas infelizmente o que a série mais peca é na originalidade de estrutura de narrativa para trazer algo empolgante e novo. A Netflix já não possui muito a cultura de dar a suas séries o famoso cliffhanger (o gancho de trama no final de cada episódio que faz com que você fique preso a história e queira assistir o próximo episódio), mas The Get Down é uma série que sente falta desse tipo de elemento, pois os acontecimentos da história são bem padrões e não nos dão nada empolgante o suficiente para continuarmos a ver a vida dos personagens, principalmente com o elenco de apoio.

The Get Down

Outro problema é a unidade de estética de montagem, que se quebra a partir do segundo episódio. Baz Luhrmann é um diretor com assinatura própria, sempre empregando em seus filmes um jeito ímpar de fotografar, cortar e montar seus filmes. Ele somente dirigiu o primeiro episódio da série, ditando o tom da mesma em sua direção, porém os outros diretores encarregados dos demais episódios não conseguem manter o mesmo fôlego autoral.

É visível que o próprio Luhrmann mexeu em um episódio aqui e ali, porém é nítido que a série sai da formatação usual do diretor e cai no lugar comum de toda série musical do segundo episódio até o final, com fotografia, cortes e montagem padrão que todo diretor mediano de Hollywood sabe fazer. Uma pena que Luhrmann não é onipresente a ponto de conseguir dirigir todos os seis episódios ao mesmo tempo.

The Get Down

REVIEW GERAL
Roteiro:
Direção:
Elenco:
Trilha Sonora:
COMPARTILHAR
AnteriorJohn Boyega na primeira foto do set de filmagens do novo filme Kathryn Bigelow
PróximoRupert Grint entra para o elenco da série adaptada do filme Snatch
Designer, escritor, amante de paçoca e cinéfilo desde de que se entende por gente, além de possuir uma coleção generosa de DVDs e Blu-Rays de filmes e séries que são limpos e organizados religiosamente.